Tradição, fé e amor / Tradition, faith and love

in english below…

Illustration: Paloma Villela

Illustration: Paloma Villela

Tradição, fé e amor   de Thinley Norbu

Quando amamos, pensamos que amamos um objeto, mas o amor está inerente no sujeito e apenas reflete no objeto. Então quando o amor está presente, a fé também sempre está ali. O objeto da fé muda de um deus para um país, ou amigo, ou amante, de acordo com a tradição que seguimos, enquanto que o beneficio temporário e último da fé segue dependente de nossa intenção com relação ao objeto.

Sem depender da tradição, não conseguimos fazer nada. Dessa forma, até que nos iluminemos, não podemos rejeitar a fé, que depende da tradição. De forma a haver comunicação, é sempre necessário lidar com a tradição da sociedade. Mas se confiamos nisso com apego rígido, então pela nossa fixação, ficaremos presos à tradição.”

… A *tradição, se não é pura, sempre impõe limites. Assim, desde o princípio, para liberar nossa mente do hábito da armadilha tradicional do samsara, não devemos ter apego à tradição. Devemos ter uma compreensão da exibição dos muitos possíveis aspectos da tradição sem ignorar as tradições dos outros, de forma a beneficiar e satisfazer os seres tradicionais do samsara. Dessa forma, ao mesmo tempo em que liberamos nossa mente da tradição, para ornamentá-la, devemos brincar com ela, sem aceitação ou rejeição, como um belo pássaro e uma árvore ornamentam um ao outro.”

“Caso enquanto artistas tenhamos a intenção limitada de expressar apenas as formas estéticas nos limites de nossa própria tradição, que vemos pelos olhos obscurecidos dos elementos grosseiros, então está bem para nós permanecer sempre presos no campo limitado da tradição de nosso próprio país. Caso tenhamos a intenção vasta de ser artistas sublimes, de expressar as qualidades da tradição da sabedoria ilimitada, então precisamos sair do canto sombrio de nossa tradição e vir para o centro, sem rejeitar o canto que também pertence ao centro; e permanecendo no espaço iluminado do centro, podemos emanar quantas formas existam desobstruidamente.

Caso enquanto iogues tenhamos a intenção limitada de expressar formas supersticiosas nos limites de nossa própria tradição, que visualizamos com a mente fixada de nossos elementos grosseiros, então está bem para permanecer sempre atados pelos limites da paranoia positiva. Caso tenhamos a intenção vasta de ser iogues sublimes, e cultivar a mandala ilimitada e não criada da sabedoria sublime, então é necessário escapar das mulheres comuns reclamonas e unir-se com as qualidades livres de desejo e de grande êxtase da Dakini avantajada  que realiza desejos. E então, bêbados do vinho da sabedoria, poderemos cantar canções de realização e despertar os seres da ignorância dos elementos pesados para a luz de sua mente natural com o som do tambor e do sino.

Caso enquanto meditadores tenhamos a intenção limitada de apenas expressar formas silenciosas nos limites de nossa respiração, que inalamos e exalamos pelas narinas obscurecidas do corpo cármico limitado, então está bem permanecer atados pelo espaço limitado de nossa almofada tradicional, e renascer como vacas quase totalmente silenciosas, exceto pelo mugido ocasional. Caso tenhamos a intenção vasta de ser meditadores sublimes, então precisamos liberar nossa mente da concentração e relaxar num espaço sem espaço natural, límpido e infinito. Quaisquer concepções de existência e não existência que surjam, podemos liberá-las todas até que nossos pensamentos, como nós autoliberados feitos de nuvens, se tornem ornamentos luminosos da exibição sem tradição.”

*Tradição (segundo Thinley Norbu) :

“NO UNIVERSO INTEIRO não há acordo com relação a uma só tradição, mas todos os seres, dos pequenos insetos aos praticantes sublimes, dependem de alguma delas para atingir seus objetivos.”

“Por exemplo, as aranhas tem uma tradição independente, e assim vivem solitárias…Mas se ela tenta mudar de tradição e viver num formigueiro, isso não vai funcionar, uma vez que as formigas são detentoras de uma tradição diferente, de grupo, que é daninha para as aranhas.”

“Como as formigas têm uma tradição de grupo, elas vivem em colônias… Mesmo que cem colônias de formigas sigam na direção de uma aranha, todas ficarão presas na teia.”

“Mesmo ao falarmos das tradições mundanas, não há acordo com relação a um mesmo tema. É bom comer em silêncio, numa mesa redonda com garfos e facas, ao modo da tradição ocidental polida de alguns países, e também é bom comer fazendo sons de deleite, sentado numa almofada com hashis, ao modo da tradição polida oriental de alguns países. Mas se nos apegamos à tradição, quando trocamos os garfos pelos hashis, se torna desconfortável segurá-los e difícil fazer sons de deleite com a boca; e quando trocamos os hashis pelos garfos, é difícil segurá-los e ficar em silêncio.

“…então precisamos sair do canto sombrio de nossa tradição…”

“…Então quando o amor está presente, a fé também sempre está ali…”

Como sair da nossa própria tradição? Da forma como estamos acostumados a ver as coisas? Respeito pelo ponto de vista do outro? Arte? Meditação? Fé? Amor? Como colocar em prática o desapego pelo que consideramos bom ou ruim? Certo ou errado?

 

“Tradição” do livro “Magic Dance: The Display of the Self-Nature of the Five Wisdom Dakinis” de Thinley Norbu. Traduzido por Padma Dorje.

Para ler o texto na íntegra:
http://www.budavirtual.com.br/tradicao-thinley-norbu-rinpoche/

Esse texto foi encontrado pela amiga Geralda, que gentilmente me colocou em contato com ele. Obrigado.


 

Tradition, faith and love   by Thinley Norbu

“When we love, we think we love an object, but love is inherent in the subject and only reflects on the object. Then when love is present, faith is also always there. The object of faith changes from a god to a country, or friend, or lover, according to tradition we follow, while the temporary and final benefit of faith is still dependent on our intention with respect to the object.

Without relying on tradition, we can’t do anything. In this way, until we achieve illumination, we can’t reject the faith, which depends on tradition. In order to have communication, it is always necessary to deal with the tradition of society. But if we trust in it with rigid attachment, then by our fixation, we will be stuck in tradition.”

… *Tradition, if not pure, always imposes limits. Thus, from the beginning, to free our minds from the traditional trap of samsara’s habit, we shouldn’t have an attachment to tradition. We must have an understanding of the exhibition of many possible aspects of tradition without ignoring the traditions of the others, in order to benefit and satisfy the traditional beings from samsara. In this way, while we release our minds from tradition, for the sake of ornamenting it, we should play with her, without acceptance or rejection, like a beautiful bird and a tree adorn each other.”

“If as artists we have the limited intention of expressing only the aesthetic forms within the limits of our own tradition, that we see through the obscured eyes of the gross elements, then it is okay for us to remain forever trapped in the limited field of the tradition of our own country. If we have the vast intention to be sublime artists, to express the qualities of the tradition of the unlimited wisdom, then we need to get out of the dark corner of our tradition and come to the center, without rejecting the corner which also belongs to the center; and remaining in the illuminated space of the center, we can emanate how many ways there are unobstructed.

If as yogis we have limited intention of express superstitious forms within the limits of our own tradition, that we visualize with our mindset of our gross elements, then it’ll good for always remaining bound by the limits of positive paranoia. If we have the vast intention to be sublime yogis, and cultivate the limitless and un-created mandala of the sublime wisdom, then you need to escape the common complaining women and unite with the desire-free and extasis-free qualities of the advanced wish-fulfilling Dakini. And then, drunk from the wine of wisdom, we can sing realisation songs and awaken the ignorance beings of the heavy elements into the light of their natural mind with the sound of the drum and bell.

If while meditators we have the limited intention of only expressing silent forms within the limits of our breath, that we inhale and exhale through the obscured nose of the limited karmic body, then it’s fine to remain bound by the limited space of our traditional pad, and reborn as cows, almost totally silent except for the occasional mooing. If we have a vast intention of being sublime meditators, then we must free our minds of concentration and relax in a space without natural space, clear and infinite. Any existence and non-existence concepts that arise, can all be released until our thoughts, liberated as ourselves made of clouds, become bright ornaments of exhibition without tradition.”

* Tradition (according to Thinley Norbu):

 

“IN THE WHOLE UNIVERSE there is no agreement with respect to one tradition, but all beings, from small insects to sublime practitioners, rely on any of them to achieve their goals.”

“For example, the spiders have an independent tradition, and so they live lonely … But if they try to change the tradition and live in an anthill, it won’t work, since the ants are holders of a different tradition, of the group, which is harmful for the spiders. ”

“As ants have a group tradition, they live in colonies… Even if a hundred colonies of ants follow the tradition of the spider, they all will be caught in the spiderweb.”

“Even when we speak of worldly traditions, there is no agreement with respect to a same subject. It is good to eat in silence, in a round table with forks and knives, to the polished western tradition of some countries, and it is also good to eat making sounds of delight, sitting on a cushion with chopsticks, in  the way of the eastern polished tradition of some countries. But if we cling to tradition, when we shift forks for chopsticks, it becomes uncomfortable hold them and difficult to do delight sounds with your mouth; and when we exchange the chopsticks for forks, it’s hard to hold them and be silent.”

“… then we need to get out of the dark corner of our tradition …”

“… So when love is present, faith is also always there …”

How to get out of our own tradition? Of the way we are used to see things? Respect for the point of view of others? Art? Meditation? Faith? Love? How to put into practice the detachment from what we consider good or bad? Right or wrong?

 

“Tradition” of “Magic Dance: The Display of the Self-Nature of the Five Wisdom Dakinis” of Thinley Norbu. Translated to portuguese by Padma Dorje.

Re-translated to english: Paloma Villela
Review: Marcel Ruiz

To read the full text:
http://www.budavirtual.com.br/tradicao-thinley-norbu-rinpoche/

This text was found by my friend Geralda, who kindly put me in touch with it. Thank You.

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