A farsa de mim mesma / The farce of myself / La farsa de mi misma

in english below…
en castellano abajo…


A farsa de mim mesma

Photography: Patrick Villela

Photography: Patrick Villela

A janela estava aberta e a chuva não fazia barulho. Sei que é estranho, mas era assim. O único que podia perceber era esse corpo por todas as partes. Eu, olhava estupefata como se expandia por todos os lados, de verdade, não podia entender como. Na extensão do meu braço e pernas e olhos… dedos e cabelos… nuca e orelhas… pés e seios… estava tudo tomado. A chuva que parou, ainda sem fazer barulho, deixava lugar para o sol forte que dirige seus raios por dentro da janela anunciando que o tempo tinha acabado. À partir de agora o mundo ‘acorda’, e com ele, todos os seres ‘viventes humanos’ deixam suas vidas para viver a ilusão.

Acordei ainda sentindo o barulho dos raios do sol entrando pela janela, som semelhante ao coração latente depois de uma corrida para dar o último adeus antes que o ônibus partisse daquela rua deserta, aonde não existiam casas, nem pessoas… só o ônibus que parte. O cheiro eu não podia identificar. Eu gostava da sensação de ser alguém sem nome; assim não me identificava com nada e nada era meu dever, nem nada era meu desejo. Eu era esse corpo que grudado com o dele, desaparecia afundando. Minha pele, não era minha… cheguei a ter um pouco de medo junto com o prazer… sim, sempre me identificavam pelo meu nome, pelo meu trabalho, pela minha formação, pela minha família, pela minha nacionalidade, pela dia que nasci, pelas minhas roupas, pela minha forma de falar…eu, quem era sem tudo isso? Essa pessoa sem nome, fundida nesse corpo que se expande. Quem era? Não era eu então!? Esse vazio (que não era tão vazio assim), pouco a pouco se fundia, agora não só com o corpo dele, mas com cada coisa, matéria ou organismo; sol e gotas, resquícios de chuva que partiu deixando presentes de céu… pequenas gotas duvidosas do momento de partida. Partida!? E o meu corpo? O perdia para sempre?

Enquanto meu corpo se desfazia da matéria, minha compreensão crescia; mas minha consciência ainda estava aprisionada, curta e confusa; para ela, não era momento para filosofar, tinha que descobrir o que estava acontecendo. Me recompor, recuperar meu nome e todos os complementos que faziam de mim parte do mundo que conhecemos, se não, como voltaria? Disso falavam quando diziam que somos parte do todo? Mas a visão de um mesmo quando é parte de todas as coisas também muda, agora podia ver e sentir. Sim! Minha identidade não era nada disso; era minha essência, eu me comunicava agora com seres de mundos paralelos , comigo mesma, com ele, com a matéria, com cada estrela e planeta. Sim! Agora sou livre!

No momento que gritei minha liberdade para todo o universo, saltei em uma tentativa de voar e… cai. Estava no chão. Não! Acordei! Olhei ao meu redor, a mesa, o armário, cada livro… meus desenhos na parede… estava tudo como eu tinha deixado… e de repente esta figura vestida de negro, que me olhava… eu mesma; parada observando. Fechei os olhos uma vez mas e quando voltei a abrir, já não estava. Tive a sensação que era um espelho, o retrato da minha pessoa nesse mundo, e não pude respirar. Estava enterrada pelas minhas ‘identidades’. A compreensão vinha junto com o assombro. Agora que eu sei, como poderei continuar vivendo a farsa de mim mesma?

 

Texto: Paloma Villela
Fotografia: PatrickVillela
Modelo: Jacyra Monteiro
Revisão de texto: Marcel Ruiz Forns


The farce of myself

Photography: Patrick Villela

Photography: Patrick Villela

The window was open and the rain didn’t make any noise. I know it’s weird, but it was like that. The only thing I could see was this body everywhere. I looked stunned as it expanded everywhere, I really couldn’t understand how. All over my arms and legs and eyes and hair… fingers, neck and ears… feet and breasts… everything was taken. The rain stopped, again quietly, and left room for the bold sun to direct its rays through the window announcing that the time was up. From now on, the world ‘woke up’, and with it, all ‘living human beings’ left their lives to live the illusion.

I woke up still hearing the noise from the sunlight coming through the window, it sounded like the beating heart after a run to give the last goodbye before the bus departed the deserted street, where there were no houses, no people… only the bus that parted. The smell, I could not identify. I enjoyed the feeling of being someone nameless; so I didn’t identify myself with anything, and nothing was my duty; nothing was my desire. I was this body that stuck on his, disappearing while sinking in. My skin was not mine… I felt a bit of fear mixed with pleasure… yes, I was always identified by my name, for my work, for my training, my family, by my nationality, the day I was born, for my clothes, the way I talk… Who was I without all this? This unnamed person, fused in this body that expanded. Who was I? It wasn’t me then? This emptiness (not so empty), gradually merged, now not only with his body, but with everything; matter or body; sun and drops of rain that remained as sky gifts… dubious small drops of departure time. Departure? And my body? Lost it forever?

While my body was abandoning the matter, my comprehension grew; but my consciousness was still trapped, short and confused; for her it wasn’t time to philosophize, she had to find out what was happening. Compose myself, get my name back and all the accessories that made me part of the world we know, if not, how to return again? So, they spoke about this when they talked about being part of the whole? But the view of yourself isn’t the same when you are part of everything, it also changes, now I could see and feel. Yes! My identity wasn’t anything like that; it was my essence, I communicated now with beings of parallel worlds, with myself, with him, with the matter, with each star and planet. Yes! Now I am free!

At the moment I screamed my freedom to the whole universe, I jumped in an attempt to fly… and fell. I was on the ground. No! I Woke Up! I looked around the table, cabinet, each book… my drawings on the wall… everything was where I had left it… and suddenly this figure dressed in black, who looked at me… myself;  watching me. I closed my eyes one more time and when I opened them, the figure was gone. I had the feeling it was a mirror, the picture of me in this world, and I could not breathe. I was buried by my ‘identities’. The comprehension came with astonishment. Now that I know, how can I go on living the farce of myself?

Text: Paloma Villela
Photography: PatrickVillela
Model: Jacyra Monteiro
Text review: Marcel Ruiz Forns


La farsa de mi misma

Photography: Patrick Villela

Photography: Patrick Villela

La ventana estaba abierta y la lluvia no hacía ruido. Sé que parece raro, pero era así. Lo único que podía percibir era ese cuerpo, por todas partes. Yo, miraba estupefacta como se expandía por todos los lados, de verdad, no podía entender como. En la extensión de mi brazo y piernas y ojos… dedos y cabellos… cuello y orejas… pies y senos… estaba todo tomado. La lluvia que paraba, aún sin hacer ruido, dejaba lugar para el sol fuerte que direccionaba sus rayos por dentro de la ventana anunciando que el tiempo había terminado. A partir de ahora el mundo ‘despierta’, y con él todos los seres ‘vivientes humanos’ dejan sus vidas para vivir la ilusión.

Desperté, aún sintiendo el ruido de los rayos del sol entrando por la ventana, ruido semejante al corazón latiente después de la carrera para dar el último adiós antes que se vaya el autobús que parte de una calle desierta, donde no hay casas, ni personas… sólo el autobús que parte. El olor, no lo podía identificar. Me gustaba la sensación de ser alguien sin nombre; así no me identificaba con nada y nada era mi deber, ni nada era mi deseo. Yo era ese cuerpo que pegado en el de él, desaparecía  hundiéndome. Mi piel, no era mi piel… llegué a tener un poco de miedo junto con el placer… si, siempre me identificaban por mi nombre, por mi trabajo, por mi formación, por mi familia, por mi nacionalidad, por mi fecha de nacimiento, por mi ropa, por mi manera de hablar… yo quien era sin todo esto? Esta persona sin nombre, hundida en este cuerpo que se expande. Quien era? No era yo entonces? Este vacío (que no era tan vacío), poco a poco se hundía ahora no sólo con el cuerpo de él, si no con cada cosa, materia u organismo; sol y gotas, resquicios de lluvia que partió dejando regalos de cielo… pequeñas gotas dudosas del momento de partida. Partida!? Y mi cuerpo, lo perdía para siempre?

Mientras  mi cuerpo se deshacía de la materia, mi comprensión crecía; pero mi conciencia aún estaba aprisionada, estaba corta y confusa; para ella, no era momento para grandes filosofías, tenía que descubrir lo que pasaba. Recomponerme, recuperar mi nombre y todos los complementos que hacían de mi, parte del mundo que conocemos, si no, como volvería? De esto hablaban cuando decían que éramos parte del todo? Pero la visión de uno cuando es todas las cosas también cambia, ahora podía ver y sentir. Si! Mi identidad no era nada de eso; era mi esencia, yo me comunicaba ahora con seres de mundos paralelos, conmigo misma, con él, con la materia, con cada estrella y planeta. Si! Ahora soy libre!

En el momento que grité mi libertad para todo el universo, salté en un intento de volar y… caí. Estaba en el suelo. No! Desperté! Miré a mi alrededor, la mesa, el armario, cada libro… mis dibujos en la pared… estaba todo como lo había dejado… y luego esta figura, vestida de negro, que me miraba… yo misma, parada observando… Cerré los ojos una vez más y cuando los abrí, ya no estaba. Tuve la sensación de que era un espejo, el retrato de mi persona en este mundo, y no pude respirar. Estaba enterrada por mis ‘identidades’. La comprensión venía junto con el asombro. Ahora que lo sé, como podré seguir viviendo la farsa de mi misma?

 

Texto: Paloma Villela
Fotografía: PatrickVillela
Modelo: Jacyra Monteiro
Revisión de texto: Marcel Ruiz Forns

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One comment

  1. wilma villela

    como?
    se mantendo acordada…
    creio eu:)
    LindaFotografiaLindaMusaCoragem
    Não necessariamente nesta ordem…
    Como se tudo isso fosse uma só”coisa”
    Mais uma vez ..
    Grata por mais um elemento de contemplacao🎈

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