O dia

 

10390111_10152077761696300_1203667546825336651_nO momento em que as coisas acontecem.

Nascemos cheios de espaços vazios, cheios de vivências passadas ou talentos que despertam com cada momento que vivemos. É fato: nascemos. E à partir deste momento, acontecem coisas. Elas são sempre coisas que  aconteceram pela primeira vez. Concorda!? Já sei que parece extraordinária esta afirmação, mais se levamos em consideração que a vida é vivida no ‘agora’; é assim. As únicas coisas que se repetem são lembranças; registros que vamos acumulando durante nossos dias. Impressões da nossa forma de se relacionar com o mundo; verdadeiras ou não (as impressões e o mundo). Coisas que acontecem com todos nós, que colecionamos como amostras (que não são grátis) do que queremos repetir e do que não queremos repetir.

Hoje vivi o extraordinário e o ordinário. Vivi o extraordinário com a mesma motivação do ordinário e me surpreendi com ambos.

“Hoje vivi o extraordinário e o ordinário. Vivi o extraordinário com a mesma motivação do ordinário e me surpreendi com ambos.”

O dia amanheceu antes mesmo do sol. Mais antes que eu possa prosseguir com o sol, é importante saber que nos reúnimos para um final de semana em família. Nos reunimos para comemorar  o dia que minha mãe nasceu. E ela sempre fez questão de exaltar a importância, o significado e a força que este dia remete para ela.

O sol…

O dia começou com yoga. Me senti guerreira praticando na casa de acampamento familiar, no quarto cheio de caixas e malas. E quando o calor da prática estava estabelecido no quarto, minha mãe apareceu. Nós duas enquanto nosso mundo dormia, foi uma sensação boa, um momento feliz. Respiramos, e em alguns momentos perdemos o foco por um sorriso; uma troca justa.

Quando todos começaram a acordar, a casa mudou de ritmo. Quem já reuniu a família, sabe. E quem já reuniu a família para dormir na mesma casa, sabe com certeza.

Hora do bolo. Na nossa família o momento mais importante, é o “café da manhã surpresa”. Não sei quando isso começou, mais começou a muito tempo quando eu era criança. Nosso dia de aniversário sempre começou com flores, frutas, cartões coloridos feitos a mão, poesias, torradinhas, mel, sucos, café, e claro, o bolo feito em casa. A mesa é tão linda e colorida, que o aniversariante sabe que seu dia começou. Essa é a hora do parabéns, dos presentes e para o resto do dia a expectativa se dissolve no alívio de viver um dia comum e ao mesmo tempo especial fazendo tudo o que você tem vontade. Quando éramos crianças faltávamos aula, meu pai voltava mais cedo do trabalho, todo o dia estava em função de observar o dia em família, de viver o ordinário que parece ser o dia, de forma extraordinária!

“A mesa é tão linda e colorida, que o aniversariante sabe que seu dia começou. Essa é a hora do parabens, dos presentes e para o resto do dia a expectativa se dissolve no alívio de viver um dia comum e ao mesmo tempo especial fazendo tudo o que você tem vontade.”

Agora que crescemos levamos com a gente a tradição que não vai mais longe na árvore familiar que meus pais. Mais que parece tão especial e profunda como se existisse desde os meus bisavós. E agora essa tradição existe na minha família, companheiro de vida e filha, também.

O sol já estava alto e até todos ficarem completamente prontos, prontos mesmo, com o pé na porta…’foi todo um processo’…como diria meu irmão. O passeio até a praia, que está a dez minutos caminhando da casa dele, foi programa para toda a manhã. E não podia ser diferente, tudo tinha que ser exatamente como foi. Sol, areia, mar gelado e gente rendida aos encantos de uma praia bonita e para meu gosto, barulhenta. Praia de cidade grande em dias de copa do mundo.

Hora do picolé. Picolé de uva, por favor. E para minha mãe açai da loja de sucos ao lado. E ai vi a trança de um cabelo tão comprido que chegava na cintura. Ela estava de costas para mim de frente para o balcão fazendo seu pedido. Eu reconheci primeiro a trança, depois busquei no meu coração todas as referências de ensinamentos, e tudo que isso representava para mim. A presença junto com a lembrança de todo aprendizado, despertou uma gratidão dentro do meu coração que não cabia no peito. Não me considero uma pessoa extremadamente emotiva; mais toda esta gratidão tinha que sair por algum lugar. Me emocionei, senti a emoção percorrer todo o meu corpo como se fosse eletricidade, respirei e me aproximei. “Com licença”, falei. A senhora me olhou com estranheza. Eu continuei: “Gloria!?”. Ela sorriu. “Posso tirar uma foto com você!?”, eu sorri. E agora foi a vez do rapaz atrás do balcão da loja de sucos me olhar com estranheza e continuar com seus afazeres. E eu ganhei minha foto com uma das maiores estudiosas de Vedanta do Brasil. Uma honra. Agradeci todos os ensinamentos e me afastei.

” “Com licença”, falei. A senhora me olhou com estranheza. Eu continuei: “Gloria!?”. Ela sorriu. “Posso tirar uma foto com você!?”, eu sorri. E agora foi a vez do rapaz atrás do balcão da loja de sucos me olhar com estranheza e continuar com seus afazeres. E eu ganhei minha foto com uma das maiores estudiosas de Vedanta do Brasil. Uma honra.”

Mais como o tempo não para de correr, o momento passou deixando passo para mais momentos. Minha filha de quatro anos, timidamente se aproximou de uma nova amiguinha no parque, com quem conversou a língua das crianças por mais ou menos uma hora. Simpatia de menina. Mãe e filha chinesas. A conversa com a mãe dela em inglês, por que meu chinês não é muito fluido..sorriso…também foi um momento surpreendente do dia. Bonito ver como nos conectamos com as pessoas independente de supostas distâncias culturais ou de lingua. Bonito ver como vivemos coisas tão parecidas uns dos outros.

E tudo acabou em pizza. Avó, tias avós, tias, mãe, pai, irmão, nora, filha…juntos para um happy hour, isso por que muitos faltaram. Todos tinham suas idéias próprias do que era uma comemoração de aniversário perfeito. E foi assim que as expectativas começaram. Junto com as expectativas, sentimentos de urgência para satisfazer esse sentimento foram crescendo no coração de cada um. Expectativa+cansaço não é exatamente a melhor combinação. Incompatibilidade de estilo de vida também foi uma das dificuldades em questões de entrosamento no nosso fim de tarde.

Voltamos para casa cansados. Mais nada que uma boa noite de sono não fosse capaz de resolver.

Ordinário e extraordinário junto e misturado, assim foi o dia.

 

 

Texto: Paloma Villela

Foto: Patrick Villela

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